TÃtulo: Caderno de um Ausente
Autor: João Anzanello Carracoza
Editora: Cosac Naify
Publicado em: 2014
Páginas: 128
Olá, leitor!
Se você gosta de livros tocantes e poéticos, provavelmente irá gostar da indicação que eu trouxe nesta resenha. Hoje vamos saber mais sobre Caderno de um Ausente do autor João Anzanello Carrascoza.
O que é viver sabendo que um dia tudo irá acabar para você, mas que irá continuar para quem está ao seu redor? Um dia teremos de encarar a morte, deixar o aqui e agora, deixar quem mais amamos e partir. Agora imagine a vida de um personagem, que já não é mais jovem como um dia fora, e que acabou de ver sua filha nascendo. A filha tão pequena e tão frágil para o que irá enfrentar no mundo afora. Uma vida que acabou de começar. Os seus primeiros minutos, suas primeiras semanas, seus primeiros meses e anos se encontrando com outra vida, uma vida desgastada, uma vida em seus últimos minutos, em suas últimas semanas, em seus últimos meses e anos.
"Vens com esta marca, de minha ausência, a envolver inteiramente a tua vida, e este é um dos primeiros sustos que temos nesta existência, somos o que somos, não há como alterar a nossa história [...]"
Pois bem, é nesse momento que vamos nos inserir em acontecimentos da vida de um pai que escreve em um caderno para sua filha que acabou de nascer. Ele é perseguido por pensamentos pessimistas acerca do que será de Bia, sua filha, a partir do momento em que ele não estiver mais lá para cuidar dela. Pensamentos sobre o que ela irá aprender e o que ela irá ter de enfrontar em um mundo tão cruel como o nosso, motivam o pai a escrever esse diário a fim de que um dia sua filha leia tudo aquilo e encontre as respostas que precisa e para que, de certa forma, amenize a dor da ausência.
O pai escreve de forma melancólica, como se já estivesse partido, como se já soubesse do futuro, como se ele mesmo soubesse a dor e a ausência da sua própria existência na vida de sua filha. Enquanto ele escreve, o sentimento de finitude acaba proporcionando várias questões existenciais, relatos e memórias da famÃlia, da vida do pai e da mãe, reflexões sobre sentimentos, emoções e ausências que podem orientar Bia em um futuro idealizado pelo pai, um futuro que ele não sabe como irá ser. Durante todos os relatos do pai, ele faz questão de lembrar várias vezes da impossibilidade de ver Bia crescer. Ou seja, ao mesmo tempo em que o pai tem que dar as boas vindas à filha que acabou de vir ao mundo, ele tenta também se despedir por meio do que ele escreve no caderno.
É um livro marcado por emoção, onde não existe uma história fixa, mas vários relatos e memórias que são colocadas de forma muito poética, simples e emocionante. O estilo de escrita me fez ficar muito tocada em cada página que passava. Apesar de ser escrito de forma simples, são temas pesados e é impossÃvel o leitor não se emocionar, não se identificar, não marcar vários fragmentos.
"[...] “eu te amo” nem sempre é um incêndio, infinitas vezes é monotonia, o que vai do coração à lÃngua perde muito de sua seiva no caminho, como a água é menos água entre o copo e a boca, o mel é menos mel no percurso do pólen ao favo."
Foi uma surpresa pra mim, como leitora, encontrar um autor que soube expressar com palavras e ausências a dor do incerto, um autor que soube mostrar a fragilidade das nossas vidas em forma de uma prosa carregada de poesia. Afinal, nosso cotidiano é marcado por incertezas, nós não sabemos como será o amanhã e o depois de amanhã, nós não sabemos o que será de nós e o que será de quem amamos. Então, foi uma grata experiência ler toda essa incerteza em forma de palavras. Foi emocionante acompanhar a ansiedade, a tristeza e a melancolia de um personagem que já sabe o seu fim.
"E, igual às flores, as alegrias também apodrecem no dia seguinte."
Obrigada se você leu até aqui! Espero que tenha gostado da resenha que nunca irá ser a completa e perfeita descrição de como eu me senti ao ler esse livro.