Proibido – Tabitha Suzuma
17/12/2014
Eu achei que estava preparada para Proibido. Eu achei que minha mente estava aberta o suficiente para ler uma história de amor incestuoso. Eu acreditei que estava preparada para ler uma história assim... Mas não...
Eu não estava preparada para Lochan... Eu não estava preparada para tanto sentimento... Eu não estava preparada e protegida o suficiente para não ter meu coração feito em pedaços. Eu não estava preparada para tantas lÔgrimas, para tanta revolta com um mundo que pode ser ao mesmo tempo injusto e ingrato, que insiste em julgar pequenos detalhes como se fossem grandes e enormes penhascos.
O que Ć© certo ou errado no amor? O que Ć© certo ou errado quando se trata de sentimentos? Pode existir um amor – totalmente consensual, sem pressƵes ou disfunƧƵes psicológicas – que seja realmente proibido? E o que Ć© mais errado, uma menina de cinco anos jĆ” saber que a vida nĆ£o Ć© justa, um menino de oito nĆ£o poder fazer coisas legais como todos os amigos pois nĆ£o tem pais presentes ou dois adolescentes acabarem se apaixonando?
Antes de responder... Deixa eu contar uns detalhes... A famĆlia de Lochan e Maya foi abandonada pelo pai quando ele tinha doze anos. A partir desse momento, sua mĆ£e fez questĆ£o de deixar bem claro de que nunca quis filhos e prova isso em todas as vezes que aparece – bĆŖbada, gastando o dinheiro com roupas curtas para parecer mais nova, mal dando dinheiro para a comida em casa, quem dirĆ” atenção aos filhos.
Devido as circunstancias, Lochan (com 12) e Maya (com quase 11) se tornaram ‘os pais’ de 3 crianƧas (uma inclusive muito pequena). Eles sempre viviam juntos, eram inseparĆ”veis e melhores amigos. Nesse momento eles passaram a ser tambĆ©m parceiros, um se apoiando no outro para tentar manter a famĆlia unida. Agora, Lochie com quase 18 e Maya com quase 17 jĆ” estĆ£o acostumados a ter a responsabilidade de cuidar dos irmĆ£os de 13, 8 e 5, alĆ©m de ainda fazer malabarismos e manobras para nĆ£o chamar a atenção da assistĆŖncia social e a ‘famĆlia’ ser separada.
Lochan.... Como estar preparada para Lochie... Como comeƧar a falar sobre ele? TĆ£o profundo, tĆ£o sensĆvel e por causa de um pĆ¢nico de se relacionar com qualquer um que nĆ£o for de sua famĆlia, tĆ£o solitĆ”rio. E se isso tudo nĆ£o fosse o bastante, ele ainda acredita que Ć© sua função manter todos unidos, fazer com que tudo dĆŖ certo, ser o homem da casa e manter tudo o mais perto do normal possĆvel. E isso tudo, sem largar os estudos pois sabe que só assim tem chances de um futuro melhor. Ele tem um fardo tĆ£o grande aos dezessete anos que nĆ£o dĆ” nem para se imaginar no seu lugar.
Maya... Ela é doce, carinhosa e sempre estÔ ao lado de Lochan tentando ajudar a aliviar seu fardo. Ela sempre os viu como parceiros, sempre o viu como mais que seu irmão. Ele é seu melhor amigo, seu chão, sua razão para acordar e respirar, seu apoio. Assim como ela tenta ser o dele. No fundo os dois só tem um ao outro.
E ainda tem seus irmĆ£os que sĆ£o praticamente filhos... Kit aos 13 Ć© um verdadeiro adolescente rebelde, mas que ainda nĆ£o Ć© um menino mau. Tiff com quase 9 jĆ” aprendeu que nĆ£o adianta muito implorar atenção para sua mĆ£e e que suas promessas sĆ£o apenas palavras vazias. E Willa com 5 descobriu da maneira mais difĆcil que o mundo nĆ£o Ć© justo e mesmo assim Ć© uma menina doce e tranquila, que nĆ£o se importa em usar a meia calƧa rasgada para ir para a escola e nem que sua mochila estĆ” toda remendada com durex.
NinguĆ©m merece uma vida assim. NinguĆ©m deveria ter que passar por uma coisa assim. E foi nesse ponto em que Suzuma me pegou de jeito e comeƧou a destruir meu coração. Principalmente por eu conhecer casos de filhos em situação parecida... Por conhecer casos em que a assistĆŖncia social entra para separar uma famĆlia sem conhecer todos os fatos, ou entĆ£o que deixa uma crianƧa aos cuidados de uma mĆ£e que chamar de relapsa ainda seria um elogio. Eles se viram como podem, Lochie e Maya estĆ£o fazendo o seu melhor e quando percebem o amor, ainda tentam lutar contra os sentimentos.
Mas me diz uma coisa... Quem consegue mandar no próprio coração? Quem consegue parar de sentir algo só por que todos dizem que é errado? E por que as coisas tem sempre que serem consideradas como certas e erradas? Por que tem ser sempre tudo preto e branco? E é ai que encontramos a beleza do amor criado por Tabitha Suzuma... Um amor que é doce, puro, inocente e maior do que qualquer tipo de amor que eu possa imaginar. Um amor que é capaz de tudo... Que é mais forte que tudo.
E sabe o que é mais encantador no livro? à que em momento algum Proibido te faz pensar em aceitar o incesto como sendo normal e natural. Ele não tenta te fazer mudar de opinião quanto as suas crenças e nem se justifica para que você acredite que não tem nada de errado. Ele apenas te mostra que nem tudo é preto no branco. Que a vida tem suas exceções e que você tem que pensar muito e analisar muito todos os ângulos antes de julgar. Acho que o julgamento é o maior de todos os detalhes do livro.
Se vocĆŖ pensar na história de fora, só sabendo do relacionamento de Lochie e Maya, se vocĆŖ se colocar no lugar dos amigos de escola – que só conhecem um de seus lados – dos vizinhos que nĆ£o tem muito conhecimento do que realmente acontece dentro da casa deles, da policia que acaba vendo Lochie como um adulto (jĆ” que legalmente ele Ć© aos 18 anos) e que Maya Ć© só uma crianƧa (mesmo faltando apenas um mĆŖs para 17) vocĆŖ sabe qual posição tomar... VocĆŖ sabe o que achar... E vocĆŖ vai atirar a primeira pedra e dizer que os dois sĆ£o doentes, errados, nojentos, tudo e qualquer coisa nesse sentido. A própria Maya se sente assim ao tentar pensar se sentiria o mesmo por seu outro irmĆ£o, Kit.
Mas aà você conhece a história por outro angulo. Você conhece a história pelos olhos de Maya... Você vive com ela cada um de seus pequenos problemas do dia a dia, você a acompanha buscar as crianças no colégio, ajudar com os deveres, dar banho, comida, pÓr na cama e ler antes de dormir... Você a vê dando todo o carinho e cuidado que essas crianças mereciam ter e que por causa dela tem um pouco de algo parecido com uma mãe...
Você conhece a história pelos olhos de Lochan... Você vê sua luta diÔria para tentar não ser o Lochan Louco que é chamado na escola por causa de sua fobia com contato social. Você vê um cara solitÔrio que não tem amigos e só consegue conversar em casa, mas que mesmo assim mantem as notas altas e todas as responsabilidades da casa em ordem. Que divide com Maya as tarefas... Que não é o melhor dos cozinheiros mas que se vira como pode para ter um jantar a noite para os irmãos. Você vê um cara e acaba tendo vontade de colocar ele no colo e lhe dizer que a vida não estÔ certa, que existe muito mais do que isso e que ele não tem culpa de nada... Que não é culpa dele... Que não é culpa dele!!!
E o final???? NĆ£o... Em nenhum momento eu estaria preparada para o final... Talvez nem em um milhĆ£o de anos. Porque quando vocĆŖ pensa em amores impossĆveis, quando vocĆŖ pensa em um amor capaz de tudo, vocĆŖ pensa em um amor que Ć© capaz de morrer por vocĆŖ. E aĆ vocĆŖ percebe que isso Ć© fĆ”cil. Que Ć© muito, muito, muito fĆ”cil morrer por quem se ama. Mas e viver? VocĆŖ seria capaz de viver pelo seu amor???? Romeu foi capaz de morrer por achar que Julieta estava morta, mas ele seria capaz de viver por ela? Julieta se mata realmente quando vĆŖ que nĆ£o tem mais saĆda jĆ” que seu grande amor morreu... Ela o ama tanto que faria qualquer coisa por ele, que morreria por ele e entĆ£o morre pelo seu amor. Mas serĆ” que ela seria capaz de viver por ele? Quando o mundo te virasse as costas, te julgasse e te condenasse apenas por vocĆŖ amar... vocĆŖ seria capaz de viver pelo seu amor mesmo com toda a dor e todo o sofrimento?
Proibido levanta questões que eu sei que vou pensar por muito e muito tempo. Me fez ir as lÔgrimas ao perceber que eu jÔ li muito porém nunca tinha lido um amor tão puro, tão profundo e realmente capaz de tudo. Me fez chorar por imaginar o que iria acontecer, o que aconteceu e o que poderia ter acontecido. Me fez achar que nunca iria parar de chorar e ainda agora, escrevendo essas palavras me vem lÔgrimas nos olhos. Por que a vida real nem sempre é justa e a literatura deveria te mostrar só coisas lindas e boas e finais perfeitos e te dar um pouco de esperança...
Um livro nĆ£o deveria te fazer sofrer tanto... E ao mesmo tempo eu nĆ£o poderia pedir um livro diferente. Tabitha acertou a mĆ£o em cada letra, em cada vĆrgula, em cada curva, em cada ponto. Ela estraƧalhou meu coração em mais de um milhĆ£o de pedaƧos e eu sei que ele nunca mais serĆ” o mesmo, que eu nunca mais serei a mesma. E no fundo essa Ć© toda a graƧa e toda a beleza que um livro poderia ter... Pois se uma história realmente nĆ£o te tocar de alguma forma, pra que serve ler?
Preciso tirar um tempinho nas minhas observaƧƵes para falar sobre a edição... O livro estĆ” lindo. A capa ficou perfeita e alĆ©m disso tem detalhes nos inĆcios de capĆtulos e em todas as pĆ”ginas. A diagramação estĆ” ótima e nĆ£o lembro de ter encontrado nenhum erro. E no inĆcio ainda tem uma pĆ”gina com as premiaƧƵes da autora. Muito, muito lindo! A Valentina caprichou e merece todo o reconhecimento – e agradecimento por apresentar um livro tĆ£o lindo.
E só para finalizar esse desabafo (que nĆ£o ficou com cara de resenha de tanto que eu falei), durante vĆ”rios momentos na leitura eu me vi pensando em Wonderwall do Oasis... Principalmente em “I don’t believe that anybody feels de way I do about you now... Maybe, You´re gonna be the one that saves me, and after all you’re my wonderwall”. E Ć© nos dois lados... Maya e Lochie sĆ£o o “wonderwall” um do outro; que segundo o Urban Dictionary ‘um Wonderwall pode ser amplamente considerado como um substantivo que Ć© uma forte fundação cheia de admiração. Em outras palavras, Ć© algo que lhe dĆ” forƧa.’ E talvez isso seja tudo que Maya e Lochan realmente sĆ£o um para o outro... A forƧa... A salvação... E quem pode dizer que isso nĆ£o Ć© amor??? Ou que esse amor Ć© errado??? Eu nĆ£o consegui...



































